AQUELAS
CAMISAS...
Eu tinha apenas nove
anos quando a magia daquelas camisas surgiu pra mim. Eu escutava os radialistas falarem
sobre a tal mística mas ainda não podia entender o que era. Só sei que o
azul-vermelho-e-branco parecia seduzir meus olhos de criança e as histórias sobre as
vitórias impossíveis do time me fascinavam. Corria o ano de 1974 e o leão aguerrido do
Pici mais uma vez realizaria o que parecia impossível: venceria três vezes seguidas seu
maior rival, o Ceará Sporting, e conquistaria o bicampeonato estadual. Pronto, eu estava
fisgado, já não havia como voltar. Meu coração de criança batia tão forte quando eu
via o time entrando em campo que eu pressentia que alguma coisa muito importante estava
acontecendo em minha vida mas não sabia explicar. Hoje eu sei: a grande paixão pelo
futebol entrava definitivamente em minha vida e eu, ainda menino, sem entender bem o que
acontecia, já estava preso, preso pra vida inteira, à tal mística daquelas camisas.
O romantismo charmoso das
camisas. A torcida reconhecidamente mais vibrante e criativa. A garra histórica do time.
Tudo me fascinava e eu não disfarçava o imenso orgulho que sentia. Torcer por um clube
de futebol é levar sempre no coração o frescor da esperança. Nesses 25 anos de
futebol, vivi todos os clichês da paixão: pulei de alegria, vibrei com cada gol, engoli
o grito na garganta, ergui a bandeira pra que todo o estádio visse, fui a passeatas,
quebrei o radinho, xinguei o centro-avante, chorei de tristeza e de felicidade. Hoje,
após tantos anos e emoções tantas, meu coração ainda se aperta quando vejo aquelas
cores entrarem em campo. Eu cresci, conheci outros lugares, vivi muita coisa. Aprendi o
jogo duro da vida, treinei meu coração pra suportar emoções e até esconder
sentimentos. E sei que os tempos são outros, o futebol mudou e parece não mais haver
espaço pra certos romantismos...
Mas não tem jeito. Posso
até ficar algum tempo afastado. Quando, porém, os primeiros jogadores surgem na saída
do túnel, a velha magia retorna, invade minha alma e é como se fosse a primeira vez: a
pele se arrepia, os olhos marejam e em meu peito parece que volta a bater o coração
daquele menino que olhava pra tudo encantado. O mesmo que ainda sobrevive em meu peito e
no peito de outros meninos que hoje, fascinados, são também fisgados pela mística "daquelas
camisas".
Ricardo Kelmer é escritor e
tem uma home-page na internet: www.secrel.com.br/marte/kelmer