O Santos de Pelé,
Clodoaldo, Cejas e companhia deu de cara com o Leão do Pici numa
noite chuvosa de meados dos anos 70. Geraldino marcou nosso primeiro
gol. José Rocha, que estava lá, conta como foi...
Foi em 1974. Eu acho. Tinha
lá meus 13, quem sabe 14 anos, e a cidade de Fortaleza estava em
festa.
Naquela noite, no gramado do Estádio
Plácido Castelo, o "Castelão", inaugurado fazia pouco
tempo, onde meu pai trabalhara como servente de pedreiro e de onde eu
nunca saía - não faltava nem em treino de time adversário -, meu
Fortaleza Esporte Clube enfrentaria, pelo antigo Campeonato Nacional,
o Santos de Cejas, Clodoaldo, Pelé, Edu e companhia. O meu Fortaleza
de Lulinha, Louro, Pedro Basílio, Chinezinho, Geraldino, sim, ele,
Geraldino, um ceantroavante bom de dar gosto - não tanto quanto
Marciano, mas fazia gol. Era o que importava.
Lembro-me que um vizinho nosso,
"seu" Fransquim, inimigo mortal do meu pai, por conta de meu
pai mesmo, e até hoje eu nem sei porque, nos acompanhou. Não que
"seu" Fransquim, saudoso "seu" Fransquim, fosse
apaixonado pelo Fortaleza - não me lembro de ter perguntado isso a
ele -, mas porque estariam em campo, como já escrevi, Cejas,
Clodoaldo, Pelé, Edu e companhia. Fomos ao Castelão. Eu,
"seu" Fransquim e dois irmãos também vizinhos nossos, Beto
e Eguiberto - um dos dois, ao que me parece, já faleceu, mas essa é
outra história.
E quem foi que disse que nosso
pequenino Fortaleza tremeu diante dos medalhões alvinegros do Santos?
- o Santos daquela época, que fique bem claro, Milton Neves. Qual!
Caiu uma chuva medonha sobre o estádio, coisa que só vendo, de trovão
e relâmpago, e abrimos o placar. 1 a 0. Gol de Geraldino, ele, nosso
centroavante daquela noite. Isso foi em 1974. Eu acho. Tinha lá meus
13, talvez 14 anos, e a cidade de Fortaleza estava em festa. Naquela
noite, com aquela chuva - até hoje ainda acho que a mudança de tempo
foi marcante -, vimos tantos gols que sequer me recordo de um dos
artilheiros.
Do que me lembro bem, e isso a
história deve ter registrado, são dos dois gols de Pelé, dos dois
de Edu - um deles marcado quando eu já ia-me embora - e do sorriso do
goleiro Cejas, provocado por nós e, naturalmente, provocador. Não
sei quem fez o quinto gol santista. Não sei. Não tenho a menor idéia.
Só sei que foram 5 a 1. Mas eles tinham Cejas, Clodoaldo, Pelé, Edu
e companhia. Jogavam como ninguém. Nem a chuva foi capaz de parar
aquele time. Nem Geraldino, tadinho, que deixou sua marca na rede que
fica no gol do lado de cá, pros lados da Boa Vista, da Aerolândia.
Faz tempo, já. Muito tempo.
Ainda me recordo que saímos quando estava 4 a 1 - como disse. Edu
marcou outro quando já caminhávamos, até que sorridentes, para
nossas casas. Mas o curioso é que esse jogo não me traz lembranças
más. Não. De forma alguma. Perdemos de 5 a 1 e tenho boas lembranças.
Talvez porque noite em Fortaleza tenha sido diferente, tenha marcado
minha vida. Vi Pelé jogar - eu e mais centenas de pessoas num
"Castelão" abarrotado. Por isso, vale o escrito, como o bem
diz meu mestre Carlito Maia. Porque nem sempre se pode perder de 5 a 1
e sair contente. Nem sempre se pode ver Cejas, Clodoaldo, Pelé, Edu e
companhia. Até Geraldino, que marcou nosso gol solitário, sabe
disso. Isso foi em 1974. Eu acho. Tinha lá meus 13, talvez 14 anos, e
a cidade de Fortaleza estava em festa.
José Rocha
4 de novembro de 2000