Assim começa uma paixão

De como aquelas cores, aquela camisa
e aquela torcida
marcam, empolgam e ficam,

para toda a vida...

A manhã de domingo começou bem diferente para Bellinha, 7 anos, gerada em Fortaleza, nascida em Maceió, atualmente morando em Pernambuco. Num semáforo na Bezerra de Menezes ela olhava atenta as duas motos com torcedores devidamente caracterizados - um casal em uma delas, e na outra um menino acompanhado do pai. No carro ao lado, uma bandeira e mais gente com aquelas camisas...

 - Ôxe, painho, vai todo mundo pra esse jogo é?
- Acho que vai muita gente mesmo!

Eram 8:10 e eu também estranhava aquela situação. Estava destreinado, depois de oito anos sem tomar o caminho do PV ou Castelão. Destreinado em levar pela primeira vez uma garotinha ao estádio, sem saber se ela teria paciência para assistir o jogo. Ela, nos últimos meses, vinha demonstrando um certo interesse depois de ter me notado assistindo alguns jogos do Leão na TV, durante o Campeonato do Nordeste. Mas aquela era uma situação bem diferente!

 Parei o carro entre a pracinha da Gentilândia e a Reitoria. Na pequena caminhada apressada para o PV aqueles olhos curiosos não paravam quietos. Outro pai leva a filha de uns três anos, vestida até de gorrinho tricolor. Um torcedor ainda de ressaca passa conversando comigo: vestido com a camisa tricolor. Famílias inteiras tricoloridas se encaminhando para assistir aquele inesquecível Fortaleza x Itapagé, uma semana antes do tão esperado Bicampeonato Arrastão.

 Na esquina da Marechal Deodoro, Bellinha não resiste mais:

- Ah, eu quero uma camisa. Eu quero uma camisa!

 Não havia a camisa tradicional para o tamanho dela, mas ela se contentou com uma camiseta cavada, meio grande, que lhe caiu como um vestido sobre a calça jeans. A fila para entrar, a subida nas arquibancadas, aquela multidão em um jogo pela manhã - mais de oito mil pagantes, além do bocado de não pagantes - tudo era novidade para ela. A batida funk da TUF também passou a lhe chamar atenção.

 O jogo começa e meus receios parecem começar a se confirmar. Ela não se liga no campo, diz que tá com sede e até com dor de barriga! Frasson mete uma bomba para o gol, todos se levantam, eu grito, apesar da rouquidão, e abraço-a fortemente:

 - Gooooool!!!!! E ela, que sequer vira o lance:
- Não entendi nada...

O segundo, golaço do Vinícius, e o terceiro, cutucada do Clodoaldo após calcanhar do Frasson, ela até que acompanhou, mas a atenção mesmo parecia estar fora do campo:

- Painho, por que a camisa daquele homem é roxa, laranja e branco, diferente das outras?
- É porque ele já lavou demais e ela desbotou.
- Vai ver ele não pôde comprar outra, né?

No intervalo, descubro todo o problema. Na pressa de sair, ela deixou de ir ao banheiro em casa. E agora? Volto e perco o resto do jogo? Vou para um cantinho com ela? Uma torcedora dá a sugestão salvadora. Existe no PV um banheiro feminino razoavelmente limpo e uma zeladora na porta...

Resolvido o problema, voltamos atrasados para a arquibancada, mas ainda a tempo de ver a linda bike do Clodô estufando a rede. A galera começa: Uh! Terror! Clodoaldo é Matador!!! Bellinha, já livre do incômodo, agora está toda saltitante: Sai do chão, sai do chão, a galera do Leão!!!

Claudinho faz o quinto e o jogo entra num marasmo até o fim, todos se poupando para a necessária prorrogação. Mas Bellinha, a essa altura já é uma torcedora de carteirinha. Um teco-teco com aquelas faixas de publicidade aparece para quem está na arquibancada do lado oposto às cabines de rádio. Minha leoinha vai logo emendando, por cima da incansável bateria da TUF: Um, dois, três, passou um avião, e nele tava escrito Fortaleza Campeão!

Um pouco antes de acabar o tempo normal o bandeira marca impedimento de Clodô, que avançava sozinho. Ele pára e volta reclamando. Bellinha:

- Por que aquele meninozinho ali parou de correr de uma vez, painho?
- Não é menino não! É o Clodoaldo... Caio na gargalhada, além dos colegas torcedores ao redor, que a essa altura já estavam em estado de graça e cheios da cerveja, que era quase disputada à tapa, diante do calor que estava aumentando demais.
- Ah, sim! Uh! Terror! Clodoaldo é Matador!!! Mas ele é tão pequenininho...

Na prorrogação, depois de encontrada uma providencial sombra sob a torre dos refletores, ela já é aquela torcedora atenta, acompanhando as jogadas e pedindo gol. Expedito lembra as glórias tricolores e marca, contra, o primeiro da prorrogação. Nas contas da torcedorinha novata, que fica achando que toda partida é assim, já é 6 x 0. Muita gente considerou a contagem assim também. O baixote marca mais um, de cabeça, escolhendo o canto! Bellinha e suas pérolas:

- 7 x 0 !!! Só faltam três para acabar, né painho? 

Pra finalizar, o quarto gol do Clodô, de bate-pronto, o coloca na disputa pela merecida artilharia do campeonato. No domingo seguinte ele fecharia o décimo sexto gol, na décima sexta partida sem perder do adversário sem cor. Leão é dezesseis. A prorrogação vai acabando, a festa continua e eu fico relembrando como aprendi a gostar tanto desse clube, como adquiri essa paixão que nesse belo dia trato de dar continuidade e passar como herança...

 São aquelas cores. São aquelas camisas. É aquela torcida vibrante, fielmente tricolorida. É o Clube da Garotada...

 É o vermelho, é o branco e é o azul,

It’s Red and White and Blue!!!

Liberté, Egalité, Fraternité.

Ces’t le Bleu, le Blanc, et le Rouge!!!

 O juiz encerra o jogo. A família à minha frente recolhe as almofadas para voltar para casa. Abraço-me a pessoas a quem eu nunca vira. Oito anos sem o PV. Um gol para cada ano. Ao meu lado, sob a sombra dos refletores, às 11:15 da manhã (América e Calouros se preparando para se derreterem, pela segundona), Bellinha, definitivamente leoinha, definitivamente tricolor, me abraça reconhecendo minha satisfação em ter sua companhia naquela hora, e me diz baixinho:

 - Eu não quero ir para casa. Eu queria que tivesse demorado um pouco mais... Quando a gente vem de novo???

Lallo Gonzaga
torcedor do Fortaleza e pai da Bellinha

lallog@bol.com.br