Fortaleza Esporte Clube. FEC. Ativo pela última vez: Nunca
Não fez Login [Login - Cadastro]
Descer para o final da página

Versão para impressão | Assinar | Adicionado aos Favoritos  
Autor: Assunto: Fórum é cultura:
ANIBALDANTAS
Super Moderator
**********


Avatar


Mensagens: 10459
Cadastrado: 5-8-03

Naturalidade: Morrinhos-GO

O usuário não está online

Humor: Sem humor temporário

enviada em 28-9-05 em 10:42 AM Responder com Citação
F?rum ? cultura:



Cr?nica de Lauro Trevisan:

Falaram tanto em futebol que resolvi procurar o tal de futebol.

Disseram que o dito estava no Gigante da Beira Rio.

Ora, se estava gigante, como é que eu poderia ver? N?o sou raio xis, nem nada! Mas fui lá.

N?o achei nenhum gigante. Só tinha um baita panel?o de cimento, assim do jeito de uma igreja.

Cheguei na hora da prociss?o: todo mundo subia uma enorme escada sem degraus, levando devotadamente bandeirinhas.

N?o pude entender o que é que estavam rezando. Devia ser uma concentraç?o religiosa internacional porque falavam muito em gr?mio internacional.

Puxei o terço e entrei com eles. Mas, em vez de entrar, a gente saia. Saia para umas prateleiras redondas onde havia uma multid?o de gente olhando para baixo. Que igreja, coisa nenhuma!

Lá embaixo havia um potreiro coberto de capim. Mas nenhum boi, nenhuma vaca. Tinha só uns sujeitos, com umas canecas nas orelhas, puxando fios pra cá e pra lá. De certo era para amarrar o gado.

De repente, entram tr?s homens de luto. Ora, bolas! Aquilo n?o era de festejar morte de ninguém. Um deles assobiou que nem moleque. O pessoal olhou para os buracos que tinha perto do potreiro.

Vai ver que estava chamando o gado. Quase me assustei, saiu daquele buraco um bando de gente, correndo ?s pressas para junto do homem-de-preto. E se foram de cuecas mesmo, nem tiveram tempo de botar as calças. Usavam umas camisas vermelhas, que parecia que iam fazer uma tourada.

Mas n?o vi nenhum touro. Quando eles entraram, foi uma gritaria dos diabos: acho que n?o gostaram de ver aqueles marmanj?es em trajes inconvenientes, e sacudiam as bandeiras, berrando: "Bolorado! Bolorado!" Outros diziam: "Isso-tem-que-ir-mal!" "Isso-tem-que-ir-mal!"

Nem bem os da banda de cá tinham parado de gritar e já o pessoal da banda de lá abriu o tarro a todo vapor: é que entrava mais um bando de gente vestindo bermuda preta e blusa preta-azul-e-branca. Pelo jeito eram parentes dos tr?s homens-de-preto.

E o pessoal gritava de bandeira em punho: "G?mio! G?mio!" Acho que eram g?meos de fato porque todos se vestiam igual. Outros, mais enfezados berravam. "Qui bolor! Qui bolor!"

Aí, um daqueles homens-de-preto, que era o dono do jogo, porque estava com a bola na m?o, chamou todo mundo, disse umas que outras, e eles se foram envergonhados cada um pro seu cantinho.

Fizeram em seguida um minuto de sil?ncio durante trinta segundos. Perguntei para um sujeito que vinha vindo o que era aquilo e ele gritou: "Cachorro-quente! N?o aguentei e respondi: "Cachorro-quente é a tua vó!" Depois me lembrei que o sil?ncio podia ser pela morte do cachorro quente deles.

Ent?o eu pensei... olha, nem deu pra pensar porque deram uma buzinada, um cara chutou a bola pra cá, os de cá n?o gostaram e chutaram pra lá, os de lá iam pegar mas um de cá pegou antes, encostou no sapato, fez que foi mas n?o foi, gingou as catracas, e mandou a bola pra riba.

Foi lá um sujeito, meteu a m?o, o cara-de-luto n?o gostou e deu a bola pros outros. Todo mundo corria feito mosca tonta. Só os dois homens que estavam debaixo da porteira é que ficavam parados.

Falta de colaboraç?o! Garanto que eram parentes do homem-de-preto porque eles pegavam a bola e o de preto n?o dizia nada. E tudo continuava na base do toma lá e da cá, pega aqui, vai aí, corre pra lá, faz que vai, e assim foi nessa agonia durante quarenta e cinco minutos.

Ent?o o homem-de-preto bizinou, levantou os braços e mandou todo mundo embora, que n?o tinha tempo a perder naquele vira-e-mexe que ninguém se entendia. Botou a bola debaixo do braço, chamou seus dois irm?os, e desapareceu.

O pessoal das prateleiras n?o quis saber de ir embora. Queria mais e ficou por aí. Só um sujeito gostou daquilo, porque gritava pra cima e pra baixo: Kibom! Kibom! Acho que o homem-de-preto ent?o ficou com pena e mandou os marmanjos entrarem no potreiro para fazerem tudo de novo.

Impossível que n?o tivessem aprendido! Viraram de lado que era para ver se dava sorte. Uma apitada e lá se foi a bola de cá pra lá, de lá pra cá. De repente, um cara tacou a botina na cara de um cara. Pois o cara-de-preto fechou a cara, meteu a cara em cima do cara, chamou de cara-de-pau e escreveu que na próxima vez ia levar a m?o na cara do cara.

Aí fiquei sabendo o nome do homem-de-preto, porque a platéia gritava: "Ad?o! Ad?o!" Pois o seu Ad?o deixou o corre-corre continuar mais um pouco. Como nada melhorava, resolveu acabar com a bagunça.

Apitou, ergueu os braços de t?o cansado, e mandou todo mundo pra casa. Perguntei pro vizinho o que é que houve e ele berrou nos meus ouvidos: "Se n?o ouve está surdo. N?o v? que terminou o futebol?"

Pois foi aí que descobri que tudo aquilo era o tal de futebol. Futebol é a vovozinha de quem inventou essa coisa!



Por.: Lauro Trevisan




http://www.fortalezaec.net/Content/Splash/escudoh.pngCOMPRE ESSA IDÉIA!https://scontent-b-gru.xx.fbcdn.net/hphotos-prn2/t1.0-9/10305050_655659804488067_4125737658806915381_n.jpg
Visualizar o Perfil do Usuário Visualizar todas as mensagens do usuário Enviar Mensagem Privada ao Usuário Este usuário tem MSN Messenger
LeandroOdonto
Sub-23
******




Mensagens: 804
Cadastrado: 19-2-05

Naturalidade: Fortaleza

O usuário não está online

Humor: Em busca da primeira divis?o perdida!

enviada em 29-9-05 em 12:09 PM Responder com Citação


Esse cara q é o autor, deu uma viajada legal... Mas no final ficou uma bela história!!!



Sou feliz!!!
Sou de tricolor de aço!!!
http://www.artilheiro.com.br/charges/charge12.jpg
Fortaleza 6x3 Kanal
Visualizar o Perfil do Usuário Visitar a Homepage do Usuário Visualizar todas as mensagens do usuário Enviar Mensagem Privada ao Usuário Este usuário tem MSN Messenger LeandroOdonto's Yahoo
guaramiranga
Super Craque
*********


Avatar


Mensagens: 6541
Cadastrado: 1-8-03

Naturalidade: Botija - Guarami

O usuário não está online

Humor: Esses DIRETORES s?o de PRIMEIRA!

enviada em 26-9-06 em 05:23 PM Responder com Citação


Do livro Mano, de 1922. In: Milton Pedrosa. Gol de letra – o futebol na literatura brasileira. Livraria e Editora Gol, 1967.

O escritor Coelho Neto freqüentava a vida social que começava a surgir nos clubes, defendia o esporte em artigos na imprensa, acompanhava as partidas, chegando a assistir quatro jogos no mesmo dia, com seu terno branco chapéu de palha e bengala em punho. Seus filhos, atletas, chegaram a jogar bola, alguns com destaque, e a morte de um deles inspirou o literato a escrever o livro Mano, em 1922, de onde foi tirado o trecho a seguir.


Contraste

Coelho Netto

Quando o levaram de mim o estádio começava a encher-se para um dos mais renhidos jogos do campeonato sul-americano.
Ao alto da muralha da mole atlética, trapejada a bandeiras e flâmulas, que espadanavam ao vento, borrifadas de chuva, apareciam os primeiros vultos.
O movimento das ruas que se cruzam dissemelhavam-se em contraste irônico. Em uma, o burburinho álacre da multid?o desensofrida que afluía ao espetáculo da luta: veículos e turba, preg?es, estropeada de patrulhas, correrias de retardatários que se apinhavam tumultuosamente junto da bilheteria como se a quisessem tomar de assalto.
Na outra rua, sil?ncio: gente ? espera em grupos, nas calçadas, ?s portas e ?s janelas; duas longas filas de automóveis e o coche fúnebre parado diante da minha casa em pranto.
Na minha sala de trabalho, de janelas abertas, revestida de luto, com um altar armado, jazia sobre a minha mesa, entre círios e flores, o maior desastre da minha vida.
Toda a casa regurgitava de gente: era a solidariedade dos coraç?es amigos na desgraça, a doce esmola de amor trazida ? nossa miséria.
Por toda parte, profusamente, flores: sobre os móveis, pelos cantos, fora, no jardim: em palmas, ramos e grinaldas e ainda esparsas, aqui e ali. Nunca a primavera fora t?o pródiga com o meu jardim.
Foi preciso que a Morte nele entrasse para que os meus canteiros se adornassem tanto. Por tal preço n?o os quisera eu t?o végetos.
Longo, perduradouro vozear no estádio anunciava o início do jogo, quando o sacerdote, o mesmo que o ouvira de confiss?o, aproximou-se para encomendá-lo a Deus.
Era o sinal da partida.
Uma voz sussurrou-me:
"Que iam fechar o caix?o".
Estremeci. Seria possível! Encheu-me o peito de tanta agonia que me senti opresso, como se o meu coraç?o se houvesse petrificado.
Que fazer?
Último adeus ao filho, último beijo ? fronte gélida, benç?o derradeira.
Retiraram-lhe o crucifixo do peito.
Como o que embarca entrega no portaló o bilhete de passagem assim já n?o lhe era necessário o símbolo da Fé, porque o seu corpo tinha a câmara ? espera e o seu espírito suave já devia achar-se na presença de Deus.
Tomei-lhe, a furto, o que dele me podia ficar – algumas flores que lhe haviam murchado sobre o peito, mortas como ele, bem em cima do seu coraç?o.
Um a um alguém foi apagando os círios. Eram as últimas esperanças que se extinguiam. A sua eterna manh? rompera. Para que luzes noturnas?
Fecharam o caix?o florido. Que mais?!
Eu olhava em volta de mim em busca de uma esperança e só via lágrimas em todos os olhos. Tudo estava acabado. Dali ao túmulo, nada mais.
Levaram-no.
E a casa foi, pouco a pouco, esvaziando-se – vazia de gente, vazia de flores, vazia, principalmente, da felicidade, que ia com ele.
E tive coragem de acompanhá-lo até a estância derradeira e vi-o baixar ao fundo da sepultura, profundidade só comparável ? do azul do infinito.
E o abraço brutal da terra sonora, pouco a pouco encerrando em si o corpo amado, fechando-se sobre ele, abafando-o, sumindo-o até possuí-lo todo, só dela.
E ali fiquei a olhar como quem, de cima de uma rocha, v? perder-se no horizonte a vela da última esperança.
E, diante daquele deserto, eu era como um náufrago em ilhéu estéril na vastid?o do oceano.
Arrancaram-me do presídio. Era a vida que me reclamava como a morte o levava, a ele.
E vim, sem consci?ncia, até a casa, onde revi os meus, como se uma vaga me houvesse arrojado ? praia e eu acordasse atônito.
A tarde estiara. Dir-se-ia que a chuva fora apenas para chorar o morto, como os olhos dos que me haviam acompanhado no doloroso transe.
Águas que n?o cessam s?o as que jorram das fontes e dos coraç?es. Águas que se formam nas nuvens passageiras e nos olhos indiferentes depressa o sol e o esquecimento secam; as que brotam das rochas e das profundas do amor, essas n?o estancam nunca! Se estancassem como se mataria a sede, como se mitigaria a saudade?
No jardim, restos de flores: ainda na minha sala os círios da vigília.
Já haviam despido de luto as paredes, já haviam desarmado a essa e o altar e a minha sala de trabalho voltara ao seu aspecto natural. Pairava apenas no ambiente um cheiro morno de cera e de flores murchas. E na casa era tudo. Os coraç?es, esses...
Onde quer que se passasse ouvia-se o convulso tremor de pranto.
Uma figura inerte, de negro, estatelada, estéril, jazia apagada a um canto, como aqueles círios que ainda lá estavam, de morr?es negros, também apagados, sem lágrimas.
N?o parecia sentir: olhava pasmada, como alguém que se visse em um patíbulo, condenada sem culpa e, em tamanha injustiça, n?o achasse palavra para bradar a sua inoc?ncia.
Pobre m?e!
Aproximei-me dela, unimos os nossos coraç?es feridos do mesmo golpe e as nossas dores comunicaram-se.
Assim um rio cresce assoberbado e na viol?ncia em que investe derruba árvores e barrancas e tais destroços represam-no até que outro rio, nele despejando-se, engrossa-o e, os dois, juntos, forçam, levam de vencida o empeço e correm alagadoramente.
Chorávamos humildes quando trovejou no estádio clamor imenso de triunfo e o coliseu longamente atroou o estrondo das aclamaç?es vitoriosas.
Ouvindo aquele trovejo heróico lembramo-nos de tardes, outras, iguais ?quela e parecia-nos que o nome proclamado estrepitosamente era o dele, dele que ali se fizera desde pequenino, brincando naquele campo, nele crescendo em força e garbo, nele batendo-se pelas cores, que eram o seu orgulho.
E seria dele o nome que ouvíamos nas aclamaç?es ovantes da multid?o em delírio?
Sim, era o seu nome, n?o saindo do estádio, mas do fundo dos nossos coraç?es porque, embora estrondosas, todas aquelas vozes de milhares de bocas n?o estrugiam t?o alto como nos soavam intimamente os apelos doloridos da nossa imensa saudade.
E, no final do jogo, com o escoar da turbamulta, a nossa rua encheu-se e os que passavam, comentando os lances mais brilhantes da partida, n?o se lembravam do enterro que dali saíra.
E, para o seu espírito, foi melhor assim.
Era em tal alvoroço que ele gostava de ver o seu clube, cheio, empavesado, ressoando músicas e clamores. Quanta vez!
A casa, fechada, em sil?ncio, tremia com o rumor da rua. Pobres coraç?es!
E a tarde daquele dia, que fora de tristeza lúgubre, desanuviara-se a pouco e pouco, galeando-se do sol. Dir-se-ia que o céu despia o luto por aquele que chorava ou, quem sabe, talvez assim se transfigurasse para receb?-lo festivamente.
Nós é que em nada mudamos: tal como ele nos deixou jazemos: na mesma desolaç?o, na mesma saudade.
E como n?o há de ser assim se a nossa alegria era ele e ele foi-se, n?o torna, n?o tornará nunca, nunca mais!
---------------------------------------------------------------


Caros amigos forenses, mandaram-me essa mensagem e peço permiss?o para chorar um pouco no ombro de voc?s.
Este trecho me levou de volta ao dia 19 de outubro de 2003, quando me despedi da mam?e.
Logo na sexta-feira comprei meu ingresso para o jogo contra o Figueirense e precisávamos vencer para afastar o fantasma do rebaixamento. Tinha esperença pois o adversário era do mesmo "nível" do Fortaleza e n?o tinha tanta tradiç?o quanto o Gr?mio com o qual havíamos empatado (2x2) no jogo anterior.
O ingresso ainda está comigo e lembro que após o "abraço brutal da terra" no Parque da Paz ouvi algum barulho vindo do lado do Castel?o e imaginei que fosse um gol do tricolor. Mas na volta ao passar pelo estádio notei que todos estavam t?o pesarosos quanto eu.
E, devido ao congestionamento, seguimos na mesma desolaç?o, noutro cortejo fúnebre que terminou, mais tarde, com a queda do time para a 2? divis?o.

Em 2005 ganhamos deles.
Mas preciso de outra vitória no dia 4.




No final, nós nos lembraremos do sil?ncio de nossos amigos e n?o das palavras de nossos inimigos. Luther King
Visualizar o Perfil do Usuário Visualizar todas as mensagens do usuário Enviar Mensagem Privada ao Usuário


Subir para o início da página